Livros técnicos traduzidos nunca mais

Post movido para: http://blog.guilhermegarnier.com/2009/07/16/livros-tecnicos-traduzidos-nunca-mais/

Há alguns meses atrás, eu estava interessado no livro Effective Java, segunda edição. A princípio, eu pretendia comprar na Amazon, mas decidi pesquisar antes. Pela internet, não achei o livro mais barato em nenhum lugar, mas acabei encontrando em uma livraria perto do trabalho por um precinho camarada. Só tinha um problema: era a edição traduzida em português.

Inicialmente nem pensei em comprar a edição traduzida, pois acho que livros técnicos devem ser mantidos na língua original. Algumas pessoas que discordam disto argumentam que nem todos dominam o inglês, mas, sinceramente, se você tem dificuldades com inglês e quer estudar informática, procure um curso de inglês urgente! Por mais que você procure ler somente livros em português, em algum momento vai precisar consultar alguma documentação, referência ou fórum de discussão em inglês. Além disso, acho que nas traduções, por melhores que sejam, acaba-se perdendo um pouco do original (como num filme dublado, em que algumas piadas em inglês perdem completamente o sentido quando traduzidas), aumentando a possibilidade de erros e a dificuldade de compreensão do assunto. Num livro de programação então nem se fala, pois é muito comum utilizarmos muitos termos em inglês que não têm tradução para português – ou até tem, mas o original se popularizou tanto que é usado como se fosse uma palavra do nosso vocabulário.

Na época em que fiz essa pesquisa, o livro estava mais caro na Amazon do que hoje, e ainda tinha que incluir o frete. Aquela edição traduzida sairia por menos da metade. Além disso, eu não teria que esperar a entrega, era só dar um pulo na livraria e comprar. Decidi dar uma folheada no livro, só pra ver se tinha algum erro gritante de tradução, como trechos de código traduzidos – sim, eu já vi livros com aberrações como “calculaMédia”, com acento mesmo. Como não encontrei nada de mais, acabei me deixando levar pela tentação de economizar uns trocados e comprando o livro traduzido.

Quando comecei a ler, achei a tradução muito boa. Nos primeiros capítulos, o único termo que machucou os ouvidos foi “encaixotamento automático” em vez de autoboxing – por mais que esteja correto, esse é um daqueles termos que não se costuma traduzir. Além disso, os trechos de código foram mantidos originais, e abaixo de cada um há a tradução de cada linha de comentário. Achei um pouco desnecessário, porém interessante.

Ao chegar no capítulo 4, estranhamente os comentários nos códigos passaram a ser substituídos pelos traduzidos. Isso continua até o final do livro. Aparentemente a tradução foi feita por pessoas diferentes, e faltou uma revisão mais rigorosa no final. Porém, não é nada que atrapalhe. Mais adiante, vi uma citação a uma referência bibliográfica e resolvi verificar qual era o nome do livro referenciado. Descobri que o livro não tinha bibliografia! Obviamente isso é uma exclusividade da edição em português. Mais uma falha de revisão, e esta é mais grave.

Quando comecei a ler o capítulo 5, que fala sobre generics, achei o trecho abaixo bem estranho:

Antes da versão 1.5, essa teria sido uma declaração de coleção exemplar:

/**
* Minha coleção de selos. Contém apenas instâncias de Stamp.
*/
private final stamps = …;

Não está faltando definir o tipo de stamps? Tudo bem, eu não devo ter entendido direito. Sigo a leitura e, um pouco mais à frente aparece o seguinte:

Com os genéricos, você substituiria o comentário por uma declaração de tipo aperfeiçoada para a coleção que passaria ao compilador as informações que anteriormente ficariam ocultas no comentário:

private final stamps = …;

Ué, mudou alguma coisa? Não é exatamente igual ao código anterior? Resolvi pegar o livro original em inglês emprestado com um amigo, e vejo que nele aparecem os seguintes trechos:

Before release 1.5, this would have been an exemplary collection declaration:

// Now a raw collection type – don´t do this!

/**
* My stamp collection. Contains only Stamp instances.
*/
private final Collection stamps = … ;

e

With generics, you replace the comment with an improved type declaration for the collection that tells the compiler the information that was previously hidden in the comment:

// Parameterized collection type – typesafe
private final Collection <Stamp> stamps = … ;

Os destaques em negrito são do livro original. Aparentemente, tudo o que estava em negrito foi omitido na tradução! E, se estava em negrito, é porque é exatamente o trecho mais importante do código! Posteriormente, descobri que isso acontece em todo o capítulo 5. Do 6 em diante os códigos voltam ao normal e não encontrei mais nenhuma bizarrice, exceto a tradução de “thread” para “segmento”.

Outro erro que se repetiu bastante no livro são as referências a números de páginas (ex: “veja a página 147”). Em todas as situações em que isso ocorre, o número da página que é referenciado é o do livro original, tornando a referência inútil na edição traduzida.

A conclusão que tirei dessa situação: livro técnico traduzido nunca mais! Os trocados que resolvi economizar com o livro acabaram saindo muito caros. Vale muito mais a pena investir um pouco mais no livro original – e num curso de inglês, caso você precise – para não ter dor de cabeça com livros mal traduzidos.

19 Responses to “Livros técnicos traduzidos nunca mais”


  1. 1 Thiago julho 16, 2009 às 10:07 am

    Fiquei triste com esse seu post… acabei de comprar esse livro, nem comecei a ler e já estou me arrependendo.

    Em uma avaliação geral, o que você achou do livro traduzido? A leitura, tirando esse capítulo 5, foi realmente prejudicada?

    • 2 ggarnier julho 16, 2009 às 10:32 am

      Em geral até que não é tão ruim. O capítulo 5 ficou seriamente prejudicado, pois quase todos os códigos estão incompletos, e é um assunto bem difícil (generics), pelo menos para mim. Fora isso, o que mais me incomodou foi a ausência de bibliografia e os erros nas referências de páginas.

      Os demais erros são pequenos, nada que atrapalhe a leitura.

      • 3 francisco bruno outubro 25, 2011 às 8:48 pm

        Onde você consegue comprar os livros na versão original não traduzida?(estou pretendendo fazer como você deixar traduções de lado,quero ser capaz de ler livros em inglês,francês e alemão)Onde você compra me responda por favor em meu email:chicobrunoesh@hotmail.com
        Agradeço-lhe desde já

      • 4 ggarnier outubro 26, 2011 às 9:20 am

        Francisco, eu costumo comprar na Amazon.

  2. 5 Otto julho 16, 2009 às 10:48 am

    O problema não são os livros traduzidos, são os livros traduzidos por essas editoras lixo, como Altabooks e Ciência Moderna.

    Além de inexplicavelmente eles acabarem com a formatação do livro (retiram margens, tabelas, mexem nos códigos, diagramas), as traduções são medíocres. Tem trechos que não resta dúvida que foi feito com tradutor automático.

    Os livros que li da Bookman tinham traduções impecáveis. Mas, essas 2 que falei, esqueça.

  3. 6 Gustavo julho 16, 2009 às 6:39 pm

    É um problema recorrente, principalmente em livros de linguagens de programação. Será que é tão difícil colocar um programador para traduzir um livro de programação? No mínimo deveriam conhecer as palavras reservadas da linguagem em questão para que não sejam traduzidas em nenhuma circunstância.

  4. 7 Mauricio de Amorim julho 16, 2009 às 7:13 pm

    Guilherme, acho seu comentário sobre traduções cabível, mas para um iniciante, ou até mesmo aqueles que não tiveram oportunidade de uma formação privilegiada isto é um “balde de água, e gelada”.

    Acho que quando um desenvolvedor chega a procurar um livro traduzido é porque ele já chegou em um ponto que as obras produzidas por autores nacionais já não trazem o conhecimento que ele procura. Então porque não?! Cada um tem seu tempo e cada um tem seu nível de desenvolvimento e logo descobrirá por si o que é melhor, você já descobriu.

    Eu particularmente acho que um livro traduzido acelera o meu entendimento, depois eu posso consultar o material em sua lingua original com mais autoridade e discernir sobre o que devo ou não usar, ou sobre o que está certo, errado, mal traduzido.

    De qualquer forma são opiniões! Parabéns pelo trabalho e por fomentar a discussão e abrir espaço para seus leitores.

    Abraços.

    • 8 ggarnier julho 17, 2009 às 8:52 am

      Mauricio,

      realmente os livros traduzidos são muito úteis para aqueles que não se sentem confortáveis com o inglês. Eu li muitos livros em português durante a faculdade, e todos me ajudaram muito. Mas, como eu escrevi no post, em informática, cedo ou tarde você vai precisar ler alguma coisa em inglês, não adianta tentar fugir da língua.

      Existem livros muito bem traduzidos por aí, mas, por melhor que seja a tradução, ainda prefiro o original. É como um filme dublado: por melhor que seja a qualidade da dublagem, existem expressões e piadas que não fazem o menor sentido quando traduzidas, e acaba-se perdendo um pouco do conteúdo original. Quando eu leio um livro traduzido e não entendo alguma coisa, fico sem saber se é alguma tradução errada ou malfeita, ou se eu é que não entendi o assunto mesmo. Quando leio o original, tenho certeza que eu é que não entendi!🙂

      Mas, como você disse, são opiniões. Cada um tem a sua e todas são válidas.

      Abraço

  5. 9 Fabio Massa julho 16, 2009 às 8:43 pm

    Comprei o meu inglês mesmo, apesar de não ser fluente, mas quase acabei comprando traduzido também, só não comprei porque nos fóruns a galera sempre recomenda a versão original.
    Abraços,

  6. 10 André Guimarães julho 17, 2009 às 8:36 am

    Eu vi vários erros no livro. Tem erros ridículos! Erros q qm conhece o mínimo da linguagem não cometeria! Mas como eu já tinha lido o Deitel(q eu considero melhor e mais cansativo tbm) corrigi os erros e continuei lendo.

  7. 11 André Guimarães julho 17, 2009 às 10:36 am

    Eu já li um livro q diz “Leia mais na página XXX”! Acho q o cara deixou pra mudar a página dpois e acabou esqcendo! PROCASTINADORES MALDITOS!!!

  8. 13 Angelo julho 17, 2009 às 11:22 am

    Você entrou em contato com a editora e com o(s) tradutor(es) responsáveis?
    O que eles disseram?

  9. 14 Prodis a.k.a. Fernando Hamasaki de Amorim julho 17, 2009 às 11:52 am

    Entendo que a tradução de livros técnicos é um mal necessário. Eles proporcionam acesso a esse tipo de informação, que é escassa na nossa língua, e contribuem para o compartilhamento de conhecimento, que é uma das idéias de software livre e código aberto.

    Com certeza o livro original em inglês é melhor, mas para quem ainda não tem o domínio da língua inglesa, as traduções servem como solução provisória até que os mesmos estejam aptos a lerem e compreenderem 100% um livro em inglês.

    Na comunidade Ruby, há iniciativas de tradução de livros, como o Getting Real da 37Signals e o Why’s (Poignant) Guide to Ruby, traduzidos por Fabio Akita e Carlos Brandão.

    Como em tudo na vida, há os bons e maus trabalhos de tradução. Infelizmente o livro que você escolheu havia muitas falhas, mas como você mesmo disse nos comentários, há também boas traduções. Não se pode generalizar.

    Parabéns pelo blog.

  10. 15 ggarnier julho 17, 2009 às 2:36 pm

    Angelo,

    enviei um email para a editora descrevendo os erros que encontrei, e eles se limitaram a enviar uma “pequena” errata – a primeira versão, provisória, tem 3 páginas completas!

    Fernando,

    concordo com você. Também acho importante a disponibilização de material técnico em português, seja através de tradução ou material original.

    Existem muitos livros técnicos de excelente qualidade publicados por autores brasileiros, como o “Repensando a web com Rails” ( http://www.brasport.com.br/index.php?Escolha=8&Livro=L00209 ), do já citado Fábio Akita.

    No caso das traduções, acho interessante para quem ainda está começando e não se sente confortável com o inglês. Porém, como você escreveu, acho que serve somente como solução provisória.

  11. 16 jp julho 19, 2009 às 6:39 pm

    Nao sou de polemicas, mas resolvi dar minha opiniao aqui -> http://vanzinho.wordpress.com/

  12. 17 Tiago Alves agosto 23, 2010 às 2:07 pm

    Tive o mesmo problema com o Código Limpo do Robert Martin também da AltaBooks. Frases com palavras comidas. O livro não parece nem ter sido revisado.

    Enviei um e-mail à editora que nem se deu ao trabalho de responder.

    Livros técnicos traduzidos eu não compro mais.

  13. 18 Joel Queiroz fevereiro 9, 2012 às 3:53 pm

    Na minha humilde opinião, “encaixotamento automático” explica melhor o termo do que “autoboxing”, ou pelo menos tenta explicar…já que está em português, que seja 100% em português!!!
    Essa estória de que alguns termos “não tem tradução” parece conversa de brasileiro que não tem o mínimo de proficiência em inglês, e o que é mais grave, não domina o português!!!


  1. 1 Livro Técnico Traduzido, Ler vale a pena? « Vanzinho's Weblog Trackback em julho 19, 2009 às 6:28 pm

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